A Mulher, a Maternidade e a Criança

Sobre o peso do parir: um relato de parto

Conheci a Dani por acaso, através de uma amiga em comum que disse que ela teria um relato de parto muito especial. Aliás, nem nos conhecemos pessoalmente. Mas hoje li com calma o seu relato para poder publicar e parece que estava com ela, vivenciando cada parto e derrubando lágrimas por aqui. Quero agradecer muito à Daniela por nos presentar com trechos tão importantes da sua história da maternidade. Que eles cheguem a tantas outras mulheres! Gratidão, Dani! E boa leitura a todas!

Por Daniela Monteiro

Sempre ouvia admirada as histórias dos partos da minha avó e do meu próprio nascimento, especialmente por uma questão: partos normais de ‘bebezões’. Minha avó, mãe de 6 filhos, 5 partos normais com bebês em torno dos 4kg. Eu e meu irmão também por volta desse peso. Chamo-me Daniela, sou bióloga, educadora e artesã. Mãe de 3 crianças: Clara (6 anos), Davi (3 anos) e Elis (5 meses).

Em nossa primeira gestação, aos 6 meses tivemos um susto com a obstetra que nos atendia. A mim, era óbvio que faria um parto normal. Tão óbvio que nem tinha tocado no assunto com a médica até então. Mas tocamos… e para nossa surpresa ela disse: “seu bebê é muito grande, você não tem ideia da dor do parto. Eu até posso tentar fazer um parto normal, mas você vai desistir!”. Assustados, buscamos outras indicações de médicos e, nesse momento, começamos a entender o cenário da época (na verdade o cenário, infelizmente, hoje não difere muito). Dias de muita procura e nada de encontrar alguém que fizesse parto normal, especialmente sem cobrar taxas extras além do que receberiam pelo convênio. Algumas semanas depois, tivemos a alegria de encontrar nosso amigo/obstetra por indicação de uma amiga. Sentimo-nos em casa…

Clara nasceu com 39 semanas de parto normal hospitalar. Durante o trabalho de parto, pedi desesperadamente pela cesariana. Pedi muito, implorei, mas fui docemente ‘enrolada’ pelo médico que sempre me pedia ‘só mais uns minutinhos’. De meus clamores de desistência, recebi apenas a analgesia no finalzinho do trabalho. Foi um parto longo, doloroso, vomitei muito, tive uma limpeza intestinal natural intensa. As primeiras dores surgiram numa manhã de domingo e o doutor nos aconselhou descansar em casa.  No finalzinho do dia, eu estava aos prantos e fomos ao hospital achando que estava prestes a nascer, mas quando examinada descobri que tinha uma dilatação de 1cm apenas! Era só o começo! Veio a noite e passamos a madrugada vivenciando todo o período latente. Lembro de chorar baixinho lamentando ter pedido por um parto normal. Lembro de sentir uma tristeza por saber que minha filha um dia poderia sentir essa dor. Eu não entendia a dor e me questionava sempre: “Por que não uma cesárea?”.

Durante todo o tempo, recebi muita massagem do Raphael, meu marido e de minha mãe. Na verdade, não eram massagens: eu pedia para que me apertassem muito, até doer para desviar minha atenção da dor das contrações. Eu não as queria. Horas e horas se passaram e só às 4h da manhã fomos ao centro cirúrgico. Nessa época, ainda que o parto fosse sem intervenções acontecia lá, infelizmente. Chorava muito pedindo analgesia, o que logo foi atendido. As dores se foram, mas sentia vontade de fazer força. Lembro de gritar bastante quando as contrações vinham. E junto ao primeiro raio de sol, minha luz da manhã nasceu! Me tirou de minha escuridão e eu começava a nascer para vida de modo diferente. Tinha um rostinho sereno e logo mamou. E mamou muito! (E não era nenhum bebezão… 3,695kg, 49cm apenas)

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Clara

As dores foram intensas, mas eu mal me recordo delas, pois dormia profundamente entre as contrações. A sensação hoje é de que o medo da dor era tão gigantesco que eu fugia dela dormindo sempre que possível e como consequência as lembranças são vagas. É como se eu não estivesse realmente presente, sem conexão plena.  Nessa época, líamos muito pouco sobre o parto, o puerpério e todo universo do nascer. Talvez porque estivesse no final do mestrado passando por isso. Sei que não houve de minha parte uma vivência real, de entrega de alma àquele momento… E o medo parecia, por consequência, dominar a situação.

O parto sempre me deu medo. E depois dessa primeira experiência o medo se multiplicou, mas se agigantou em mim também a vontade de passar por tudo isso bem acordada! Queria ter lembranças, domínio do que estava vivenciando e 2 anos e meio depois veio o nosso ‘pequeno’ Davi. Gestação tranquila e longa. Parei de trabalhar com 38 semanas sentindo as boas ‘falsas contrações’ e vieram a 39ª, 40º, 41º e nada dele nascer. Decidimos, junto ao médico, começar estimulações com acupuntura. Bastou apenas um dia de agulhadas, uma quarta-feira de manhã bem cedinho em que fomos à acupuntura. Saímos de lá e eu fui resolver pendências na universidade: dar entrada no diploma do mestrado… Coisa que há meses estava adiando. Nessa altura da gestação, já nem me lembrava do ‘fantasma do bebê grandão’ que a obstetra anterior tinha nos pintado. E, de mansinho, às 11h começaram as primeiras contrações doloridas. Liguei para Raphael e fomos para casa. Lembro-me de almoçar uma comida tão saborosa tendo a certeza de que iria vomitá-la depois. Fui ao quarto das crianças, me sentei numa poltrona e passei a me colocar presente na situação. Foi um momento muito especial nesse parto.

Às 14h, as dores estavam fortes e quis ir ao hospital (hoje vejo o quanto a doula/enfermeira obstetra fazem falta à mulher nesse momento: que desnecessário ir ao hospital nesse momento!). Meu marido queria estacionar o carro a uns 100mts da porta de entrada do hospital ‘para me estimular a andar’ o que me fez ficar um pouco nervosa. Fui atendida por outro médico que, antes de fazer o toque, mediu minha barriga e disse: “Nossa! É um bebê grande!”, com ar preocupadíssimo. Depois, o toque e a informação que daria início o meu descontrole: 3cm de dilatação. “Toda aquela dor e só 3cm?”

Quis voltar para casa, mas eu estava em pleno descontrole: gritava desesperadamente, dava socos no teto do carro, chorava… (novamente a falta da doula!). Em casa, assustaria a Clara, sem dúvidas! Fui à casa de uma amiga. Quase me estabilizei novamente, mas logo voltei ao desespero que nos afasta da vivência mais significativa e bela do parir. Minha amiga tentou oferecer massagens, mas eu me coloquei furiosa com ela, com o Raphael, com a vida e eu só pensava: “Com uma cesárea eu acabo com essa dor num segundo”. Ao contrário do que havia imaginado, não vomitei como no anterior. Meu obstetra ligou e, diante da situação, me chamou ao consultório dele, numa tentativa de me enrolar mais um pouco, ao invés de ir diretamente ao hospital. Esmurrei tudo o que era possível esmurrar lá… Chorei… Gritei. Parecia uma leoa enjaulada. Quase agredi fisicamente minha amiga/irmã e meu companheiro. No hospital, os enfermeiros e técnicos de enfermagem se amontoaram ao meu redor. Senti-me uma atração de circo. Aos pedidos de ajuda, ouvi aquelas clássicas falas de desrespeito. Isso porque estava em um bem conceituado hospital particular da capital! Com 7cm, ganhei a tão implorada analgesia acompanhada de ocitocina. As contrações vieram com tudo, mas logo a dor sumiu. Relaxei! Vieram algumas contrações e logo começaram os puxos. Essa etapa demorou um pouco e o médico conversou conosco sobre a episiotomia e concordamos. Davi coroou, mas não descia mais e passamos pela manobra de Kristeller, rotineira na época. Fiz muita força! Muita mesmo! A cabecinha saiu e o corpo não. Foram alguns momentos de tensão, mais alguns empurrões e ele finalmente nasceu. Estava roxinho e não chorou. O pediatra correu com ele para dentro. Uns minutos se passaram e eu ouvi o choro potente do meu menino! Alívio!

O nosso médico me informou que eu tinha tido uma laceração considerável e logo começou os procedimentos de sutura enquanto o Davi passava pelos procedimentos de rotina do hospital sob o olhar do Raphael. De repente, uma barulheira: risadas, alegria e ouvi um grito. “5,420kg”!!! Lembro-me de fechar os olhos, rir e agradecer. Lembrei da minha avó e seus bebezões… Me senti forte e grata por ter tido um médico que acreditou em mim e na vida. Depois veio o pediatra lá de dentro com ele no colo dizendo: -“Papai, corre que pega a Renner aberta ainda porque essas roupinhas não servem nele não!”

Davi veio para mim, mamou um pouco e dormiu. Chegou com a noite, profundo e sereno. No corredor do hospital eu vi uma das mais emocionantes cenas de minha vida: A Clara olhando-o pela primeira vez! Uma cena para nunca esquecer. Uma cena molhada de lágrimas…

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Davi

Mas em meio a essas surpresas e alegrias, o pediatra nos paralisou com uma informação: bebês grandes tendem a hipoglicemia e ele teria que receber complemento. Fiquei em choque. Dar fórmula a um filho era uma coisa que jamais poderia imaginar. Senti raiva, mas não me sentia com armas para lutar. Mas o Davi resolveu abraçar a luta: Não aceitou a fórmula! Tomou muito pouco e chorava desesperadamente quando a enfermeira tentava dar. E a enfermeira se irritou com os pedidos para parar de dar ou de checar primeiro como estava a glicemia antes de tentar dar fórmula. E quanto mais eu pedia para parar, mais ela forçava a barra e mais ele recusava. E para a nossa alegria não fez hipoglicemia! Todavia hoje apresenta reações ao leite…

Esse parto gritou que bebê grande nasce de parto normal sim! E que leite materno é poder! Mas eu ainda não havia conseguido ressignificar o parto em mim. Saí da situação de plena prostração do primeiro parto para uma intensa reação explosiva nesse segundo. Queria achar o caminho do meio.

Sempre soubemos que nos viriam 3 filhos. Mas as dificuldades com os primeiros meses com o Davi (muita, muita, muita cólica) nos afastavam da concretização desse plano/destino. Mas, à medida que o tempo passava, crescia em mim uma saudade infinita desse terceiro serzinho. Quando saíamos, por exemplo, eu procurava pelo terceiro filho quando cuidava dos dois. E então decidimos deixá-la vir.

Essa seria uma última chance de colocar o trem sobre os trilhos e deixá-lo seguir no que diz respeito ao parto. E, para começar diferente, busquei ajuda de uma doula, a Júlia. Ela  foi amiga minha e do Raphael ainda na época da escola. Fomos muito amigas. Ela já era enfermeira obstetra há alguns anos e havia acabado de fazer um curso de preparação para doulas. Foi minha grande parceira nessa viagem! E que viagem!

Na primeira gravidez eu estava com 23 anos. Tinha um super vigor. Agora, com quase 30 senti o peso do tempo e da rotina no corpo. Já era mãe de dois, rotina puxada, trabalho de casa… Porém, o que mais me doía nessa gestação era o medo de ser novamente um bebezão e ‘não dar conta’. Busquei ler na internet sobre bebês grandes e me perdi no pavor de acontecer uma ‘distócia de ombro’, situação onde a cabeça sai, mas o ombro ‘emperra’. Nesses casos há uma sequência de procedimentos a serem tomados pela equipe em atendimento. Nada a temer! Mas durante alguns meses eu temi muito. E a cada ultrassom o medo aumentava porque a Elis estava sempre bem maior que o Davi na mesma fase gestacional.

E junto ao medo seguiram as dificuldades dessa terceira gestação. Desde o segundo mês, ao menor esforço vinham contrações de treinamento e o cansaço era extremo. No finalzinho da gestação sentia muita dor no canal vaginal também. Além disso, toda a ansiedade me levaram a muitas noites em claro. Só lá no finalzinho que recebi um ‘puxão de orelha’ do obstetra. Ele perguntou: “Você não pariu o Davi? Então confia!”. E, junto a isso, me dediquei a fazer meu plano de plano de parto e, nele, abri meu coração e parece que todo o meu ser estava pronto. Fiz o plano de parto mais poético que já vi!

A Clara e o Davi nasceram no dia 18. Meses diferentes, mas mesmo dia. A torcida geral era para que a Elis viesse também nessa data. A data prevista do parto era 6 de dezembro, mas esperar até 18 de dezembro parecia impossível, pois ela já passava dos 3,6kg com 34 semanas. As vibrações foram para o dia 18 de novembro. Como as contrações de treinamento eram intensas e, em duas ocasiões, as contrações se mantiveram ritmadas a cada 3min e depois de 1 hora cessaram, nos demos ao luxo de esperá-la para essa data. E nada! Findou o mês de novembro e nada! No dia 7 completou 40 semanas e 1 dia e fomos a uma consulta. Pela questão do tamanho que ela prometia ter, fizemos uma leve estimulação com acupuntura e na saída o doutor nos disse que achava que ela viria no dia seguinte…

Fomos para casa e tivemos um acontecimento inesquecível: choveu muito e eu estava sozinha em casa com as crianças. Tivemos um problema no encanamento do condomínio e a casa ficou inundada! A água entrava pelos ralos dos banheiros e foi enchendo tudo. Sobrou apenas meu quarto. Fiquei quietinha com eles na cama esperando ajuda. E na noite anterior havia sonhado com uma água barrenta que subia pelo ralo! Foi muito estranho e parecia que aquilo queria me dizer algo…

Minha mãe e Raphael chegaram, limparam a casa e fomos dormir. Tive uma noite terrível. Parecia que algo estava acontecendo, mas não sabia o que era. E sentia muita, muita dor no canal vaginal. Acordamos e era dia 8 de dezembro, feriado em nossa cidade, dia de Nossa Senhora da Conceição. Acordei indisposta, mas decidimos ir até o parquinho do condomínio com as crianças. Assim que chegamos eu disse: -“Preciso voltar!”. No caminho, encontramos vizinhos e sorrateiramente fugi das conversas e fomos para casa. Assim que começamos a tomar o café da manhã eu senti minha velha amiga dor do parto. E tive certeza. Avisei o Raphael, mas ele não acreditou, pois tivemos alguns alarmes falsos antes. Depois do café, fiquei encolhida no sofá e elas, as contrações doloridas, vieram suavemente me avisar que a Elis estava chegando! Ligamos para a Júlia, que estava no interior, e chegaria em 3 horas, para o doutor, que quis me ver, e para Clarissa, que faria os registros do parto.

Liguei para minha mãe e pedi para que buscasse Clara e Davi para um passeio. Dissemos aos dois que a irmã estava para chegar e eu pude ver outra cena muito especial em minha vida: a Clara veio fazer carinho em mim e nesse momento veio uma contração. Eu fechei os olhos e lágrimas saíram. Quando eu abri meus olhos vi os olhinhos dela me olhando, sentindo minha dor. Logo disse que não eram dores de sofrimento, mas sim de amor. Ela sorriu, caíram lagrimas de seus olhinhos também e me abraçou. Ah! Inesquecível! Nesse momento, eu acho que ressignifiquei a tristeza que tive no parto dela pensando que um dia ela teria de enfrentar essa dor.

As crianças partiram alegres às 10 horas da manhã. Eu vi ao meu lado no sofá uma pilha de roupas para dobrar e não senti nenhuma vontade de dobrar. Daí me disse: “Amanhã estarei com um recém-nascido em casa. É melhor dobrar”. E logo me respondi: “não, não vou me mexer daqui!”. Então pude ter certeza que estava em trabalho de parto!

A Clarissa chegou e fui me aprontar para ir ao hospital. No banheiro, a surpresa: descia de mim a tal ‘água barrenta’ do sonho… Tive um abalo. A Clarissa me tranquilizou muito e seguimos. Eu adotei uma técnica no caminho para o hospital: quando a contração vinha eu começava a contar em voz alta. Raphael e Clarissa me acompanhavam e assumiam a contagem quando faltava voz. E entre uma e outra, eu ria, conversava, ligava para saber das crianças..Eu estava me achando o máximo por conseguir manter o bom humor em pleno trabalho de parto.  Chegando no hospital, a constatação – era mesmo mecônio no líquido. Me mantive extremamente tranquila, serena e irreconhecível para quem me acompanhou nos dois partos anteriores. O doutor. fez o exame para ver como ela estava e nos deu um prazo de 5 horas para voltarmos ao hospital. Estava com 4cm de dilatação. 4cm! 4cm e eu estava zen! Estava rindo! No caminho de volta para casa, ainda liguei para meu irmão que estava com as crianças e ri muito, contando a novidade: eu com 4cm rindo! Foi muita alegria.

No caminho, lembrei que, em casa, estávamos precisando de frutas para o café da manhã das crianças no dia seguinte (sintoma de ‘mãezice aguda’) e pedi para parar no mercado. Fiquei no carro fazendo minhas contagens. Pedi para parar no restaurante para pegar marmita. Chegando em casa, fiquei na bola no chuveiro e me lembrei da data! Era dia de Nossa Senhora da Conceição. Nunca fui de pensar nessas coisas… Não sabia quem era. Pedia para que a Clarissa lesse sobre ela. Ah! Descobrimos que nessa representação de Maria vive a força da mãe, do conceber, do nascer. Que data! Depois vim a saber que no sincretismo se celebra também Oxum, força essa que há algum tempo me dedicava a pesquisar e conhecer. Também se liga às águas, a água doce, à mãe geradora… Que data!

No chuveiro, na bola passei um tempo e lá as contrações começaram a apertar. Nesse momento, pedi para a Clarissa ler um poema que eu fiz há muitos anos e nem lembrava que existia e que uma semana antes do parto meu irmão me ‘deu de presente’ num dia de grande ansiedade e preocupação. E parecia que eu o havia feito para aquele momento.

Durante esse tempo, no banheiro, evacuei bastante, mas não consegui comer. Tentei, mas sentia vontade de vomitar. Tomei apenas suco. E este foi um ponto onde falhei. Deveria ter comido antes para evitar problemas mais para frente!

Quis me deitar e, nesse momento, as dores aumentaram mais. A Júlia chegou de mansinho nesse momento. Entrou sem bater, se colocou ao meu lado e me ajudava a respirar. Assim que o desespero foi chegando, senti vontade de voltar para a barriga da minha mãe e pedi para ouvir “Debaixo d’água” na voz da Bethânia e isso me deu força por mais um tempo. Depois cantei mantras e logo quis o silêncio. Foi quando o desespero veio. Até esse momento eu não tinha gritado, apenas vocalizado. E eu gritei muito! E pensava, em meio a dor, nas vizinhas que morrem de medo do parto normal… Gritei e pedi pela cesárea. Disse que todos eles eram malvados de me deixar naquela dor e chorei descontroladamente. A Júlia sugeriu fazer o toque nesse momento e foi o momento perfeito. Estava com 7cm!!! Eu nem acreditava que já estava tão perto… Mas, por alguns instantes, perdi minha conexão com o momento e com a Elis. Eu queria desistir de tudo de novo.

Para a minha alegria ,a tomada das rédeas veio de onde eu menos esperava… do Raphael. Nos outros partos ele esteve sempre comigo, mas entrava mudo e saía calado. Não ousava existir! Mas como combinado alguns dias antes do parto. ele me tirou do desespero. Olhou nos meus olhos e pediu para que eu olhasse para ele. Falou muito firme: -“Quem pariu o Davi?” E eu respondi “Eu”. “Quem pariu a Clara?”. Eu disse: “Eu!”. Levantei-me da cadeira onde estava, fui até a pia e nova contração forte. Me olhei no espelho e disse em voz alta: “Era o que eu queria!!!”. Repeti isso três vezes e coloquei minha roupa.

Fomos para o hospital e no carro, com as dores super fortes, eu pedia a todo momento para que a Júlia e a Clarissa me dissessem o que eu estaria fazendo no dia seguinte naquela hora. Nossa! Isso foi muito forte para mim! Conectar-me com esse futuro, com a ‘bonança após a tempestade’ foi uma ponte incrível para minhas forças! Foi incrível! E à medida que eu me ligava com o nascimento, parece que eu me abria…tanto que os puxos começaram há alguns metros do hospital. E eu comecei a vocalizar diferente e gritei: “Vai nascer!!!”. A Júlia colocou luvas e não sei como se contorceu e tirou minha calcinha. Fato! Nossa pequena já estava começando a sair!

No hospital, me colocaram numa cadeira de rodas e eu passei pela recepção e tinha vontade de gritar, mas me lembro de me preocupar em manter uma cena bonita de parto (!!!) aos ‘espectadores’! (rs). Nos corredores, entendi que queriam me levar para uma sala de cirurgia e comecei a brigar com os enfermeiros e maqueiro. Fui para o quarto de partos e o doutor chegou! E ele pediu para eu deitar na maca para avaliar e eu disse muito brava: -“Eu não vou deitar aí! Não vou! Quero a banqueta!”. A Júlia explicou que já estava coroando e trouxeram a banqueta. Júlia me deu água e como isso é bom! Ah, se todas as mulheres pudessem receber esses ‘detalhes’ que mudam tudo!

Nessa altura, eu estava tão feliz, mas tão feliz que nem ligava para dor. Estava feliz, mas extremamente concentrada. Comecei a sentir o famoso círculo de fogo! Meu Deus! Eu estava feliz demais por estar finalmente sentindo um filho nascer! Senti muita ardência da cintura aos pés. Meus pés pareciam estar em brasa!

O doutor pediu para que eu apoiasse meus pés nos dele. Raphael ficou atrás de mim me dando apoio, Júlia respirando comigo e Clarissa pôs-se a registrar. Alguns instantes de espera e as frases que mais me alegram e doem o coração… O doutor disse: “Só mais uma dor dessa e será a última!” Eu senti no fundo da alma a alegria do fim da dor e a dor de nunca mais sentir essa alegria e perguntei: “Nunca mais para o resto da vida?”… Quem já passou por isso em tal plenitude e entrega sabe dá vontade que dá de parir sempre…

E assim foi! Olhei na janela, começou uma chuva fina. A dor, o ardor e o chorinho bom de se ouvir! Ela nasceu! Veio para o meu colo e eu logo vi que nossos medos não se justificavam… Nem era tão grande assim: Só 4,315kg! Olhei para a janela de novo e a chuva parou.

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Elis

Dessa vez optamos, por uma pediatra humanizada que pediu para que checassem a glicemia nas primeiras horas antes de qualquer procedimento. E foi tudo tranquilo! Nenhuma baixa!

Logo após o parto, ao tentar sair da banqueta para a maca senti tontura. Fiquei um pouco fraca. Horas depois, tentei sair da maca e tive um desmaio. Estava muito fraca, pois não comi nada além do café da manhã mal comido. E também vimos que restou um coágulo no útero que estava a impedir a circulação. Fui monitorada, comi e tudo se normalizou.

Já que esse relato se destina a um portal que celebra o nutrir, um detalhe legal para “quebrar mitos”: sou vegetariana há quase 15 anos. Nas 3 gestações, recebi olhares tortos aqui ou acolá por isso, inclusive da primeira obstetra…

Essas histórias que se entrelaçam e se desnudam nesse relato me ensinam muito da vida. Me ensinam a repensar as ‘verdades’ instaladas pela comodidade ou pelo medo no mundo; me ensinam a achar coragem frente ao medo; me ensinam do valor de se estar junto; me ensinam da fé na vida. E me ensinam, sobretudo a sentir a dor. Não mais como inimiga, mas como condutora.

Meus mais profundos desejos de que meus caminhos sirvam de caminho também.

Um fraterno abraço,

Daniela.

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Elis, Clara e Davi

 

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